21 outubro 2008

(Continua) chovendo.

E seus dias agora estavam de novo ficando previsíveis. Ele odiava isso. Principalmente quando passava a se sentir meio defeituoso, impossível de virar o jogo caso algo desse errado. Mas ainda lhe restava uma ponta de tranquilidade, o suficiente para fazê-lo relevar qualquer desafeto, o suficiente para que ele erguesse o olhar para os céus e contasse até dez. Sim, pessoas chatas existem, e teimam em aparecer com mais frequência nesses tempos de dias previsíveis.
O fato é que por mais que ele sonhasse com as coisas sendo realizadas do jeito que ele queria, algo o puxava e dizia: "calma, não é bem assim". Foi assim na terça, e tem sido assim desde o domingo. Ele sabe, ele entende suas limitações em períodos como esses. Fazia de tudo para que as coisas terminassem boas para ele. Mesmo que esse tudo significasse alguma limitação. Um tudo que não era tudo. Consegue entender?
Por sorte - ou azar - os amigos o colocavam pra cima e acabavam fazendo ele esquecer da monotonia. Só que ele não sabia se gostava ou odiava isso. Por mais que ele estivesse se sentindo chato, anti-social, ele conseguia perceber que amigos verdadeiros não queriam nem saber de tristeza.
É... E ele sempre acabava pensando como seus amigos.
Continuava a chover. A previsão não era mais a do tempo. Era a previsão de como seriam seus dias. Se chove, ele fica pensativo, extremamente intelectual. Com chuva ele poderia muito bem traçar uma análise complexa sobre a atual conjuntura dos países emergentes diante da crise financeira mundial. Se faz sol ele fica pensativo também. Mas se cansa. E então deixa seus pensamentos de lado e vai ser feliz. Só que com chuva ele também era feliz. Mas era uma felicidade livre de compromissos. Com chuva ele era essencialmente feliz. Pouco se importava com problemas comuns dos que o cercava. Ele era feliz e pronto. Isso só dizia respeito à ele.
O único momento em que o semblante de alegria dava um tempo era na volta para casa. Aquilo era uma tortura. Ele via a chuva caindo lá fora e ria. Uma risada maléfica. Pessoas se molhando e ele rindo. Nem percebia que estava se molhando também. Isso não era problema. Chegava em casa e procurava descansar. Pensar no dia que se seguiria. Será que vai chover de novo?
E de tanto pensar, ele escrevia. E ia se acalmando. Mas algo estranho acontecia toda vez que ele terminava um texto. Achava que tudo o que escrevia não fazia ligação nenhuma. As idéias não se cruzavam. Que divertido!! Seu texto ficava difícil de ser entendido. Sabia que palavras eram traiçoeiras e interpretações erradas poderiam causar uma espécie de pânico nas pessoas. Mas ele não estava nem aí. Era legal ver os outros quebrando a cabeça para decifrar suas colocações.
Procurava deixar dúvidas. Escrevia para ele, era só isso. No fundo, no fundo ele queria ser um pouco grosso com quem não o entendia e com quem queria entender o que não era para ser entendido. Sorte que nenhum chato ou ninguém que ele odiasse lia seus textos. Assim, um único diálogo nunca iria existir:
"- O que você quis dizer com aquilo?
- Se não entendeu, o problema é seu!
"

2 COMENTÁRIOS:

Josy disse...

prolixo e digressivo. muito bem.

FLiP disse...

Não sabia que uma simples chuva poderia culminar em tamanha criativadade...

Interessante!

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