06 novembro 2008

Não adianta.

E isso não era bem o que ele queria.
Às vezes agia de forma demasiadamente abrupta, sem pensar nas futuras (e possíveis) consequências.
Os outros diriam que era para ser assim mesmo, arriscado, porém intenso.
Sua cabeça o reprimia. Isso não era novidade.
Ele gostava dessa complicação. E acabava por se arriscar de uma vez por todas.
Se é para ser, que seja agora.










Vais arriscar, rapaz?

23 outubro 2008

Update.

Quando ele diz que sabe que as coisas boas vão aparecer, ele realmente sabe. Situações passavam na sua frente e diziam: "se quiseres que as coisas sejam feitas do seu modo, a hora é agora!"
Mas ele ignorou.
Preferiu voltar para casa.
E assim fez. Nitidamente revoltado pela sua falta de atitudes.
Sorte que essa não seria a primeira e muito menos a última chance de fazer tudo dar certo.

21 outubro 2008

(Continua) chovendo.

E seus dias agora estavam de novo ficando previsíveis. Ele odiava isso. Principalmente quando passava a se sentir meio defeituoso, impossível de virar o jogo caso algo desse errado. Mas ainda lhe restava uma ponta de tranquilidade, o suficiente para fazê-lo relevar qualquer desafeto, o suficiente para que ele erguesse o olhar para os céus e contasse até dez. Sim, pessoas chatas existem, e teimam em aparecer com mais frequência nesses tempos de dias previsíveis.
O fato é que por mais que ele sonhasse com as coisas sendo realizadas do jeito que ele queria, algo o puxava e dizia: "calma, não é bem assim". Foi assim na terça, e tem sido assim desde o domingo. Ele sabe, ele entende suas limitações em períodos como esses. Fazia de tudo para que as coisas terminassem boas para ele. Mesmo que esse tudo significasse alguma limitação. Um tudo que não era tudo. Consegue entender?
Por sorte - ou azar - os amigos o colocavam pra cima e acabavam fazendo ele esquecer da monotonia. Só que ele não sabia se gostava ou odiava isso. Por mais que ele estivesse se sentindo chato, anti-social, ele conseguia perceber que amigos verdadeiros não queriam nem saber de tristeza.
É... E ele sempre acabava pensando como seus amigos.
Continuava a chover. A previsão não era mais a do tempo. Era a previsão de como seriam seus dias. Se chove, ele fica pensativo, extremamente intelectual. Com chuva ele poderia muito bem traçar uma análise complexa sobre a atual conjuntura dos países emergentes diante da crise financeira mundial. Se faz sol ele fica pensativo também. Mas se cansa. E então deixa seus pensamentos de lado e vai ser feliz. Só que com chuva ele também era feliz. Mas era uma felicidade livre de compromissos. Com chuva ele era essencialmente feliz. Pouco se importava com problemas comuns dos que o cercava. Ele era feliz e pronto. Isso só dizia respeito à ele.
O único momento em que o semblante de alegria dava um tempo era na volta para casa. Aquilo era uma tortura. Ele via a chuva caindo lá fora e ria. Uma risada maléfica. Pessoas se molhando e ele rindo. Nem percebia que estava se molhando também. Isso não era problema. Chegava em casa e procurava descansar. Pensar no dia que se seguiria. Será que vai chover de novo?
E de tanto pensar, ele escrevia. E ia se acalmando. Mas algo estranho acontecia toda vez que ele terminava um texto. Achava que tudo o que escrevia não fazia ligação nenhuma. As idéias não se cruzavam. Que divertido!! Seu texto ficava difícil de ser entendido. Sabia que palavras eram traiçoeiras e interpretações erradas poderiam causar uma espécie de pânico nas pessoas. Mas ele não estava nem aí. Era legal ver os outros quebrando a cabeça para decifrar suas colocações.
Procurava deixar dúvidas. Escrevia para ele, era só isso. No fundo, no fundo ele queria ser um pouco grosso com quem não o entendia e com quem queria entender o que não era para ser entendido. Sorte que nenhum chato ou ninguém que ele odiasse lia seus textos. Assim, um único diálogo nunca iria existir:
"- O que você quis dizer com aquilo?
- Se não entendeu, o problema é seu!
"

12 outubro 2008

Dèjá vu.

"Está frio, mas não faz frio", pensou. Era verdade. Ele sentia frio sem necessidade nenhuma. Era uma sensação feliz, que vez ou outra ele gostava de ter. Estava sentindo essa sensação desde a tarde, quando no céu uma chuva ameaçou cair e o vento entrou pela porta da sua casa. Então ele saiu, foi dar uma volta sem rumo, pegar um pouco de ar. Estava precisando disso. Há dias não sabia o que era andar na rua, sem pressa, observando as pessoas em suas casas, em suas rotinas, ouvindo o som do vento que lhe soprava no rosto.
Quando se deu conta já estava em casa, deitado no sofá. Sozinho. Não que ele não tinha percebido o passar do tempo, mas nada de suficientemente importante aconteceu do fim de tarde até então. O vento de novo entrou pela porta. Ele sentiu saudades. Ia fazer um ano desde que sua vida começara a mudar em todos os aspectos. "Um ano!", repetiu algumas vezes em voz alta.
Uma música invadiu sua cabeça. Ela se repetia e ele não se cansava de prestar atenção na sua melodia, ecoada, com gosto de dever cumprido misturada com agonia. Sinestesia era o seu negócio mais produtivo. Agora seus pensamentos mudavam de direção. E a música também acompanhou a mudança. Cantava para si mesmo, intimamente, uma música que só sabia o nome, mas que tinha marcado uma época que ele gostaria de viver de novo.
Os pensamentos lhe diziam que ele estava no caminho certo: Estava fazendo o que devia ser feito, estava agindo como deveria agir. A razão por sua vez lhe pedia para ser cauteloso. Só que ele não estava arriscando nada para ter um motivo que lhe exigisse essa cautela. Ele apenas estava se deixando levar pelas emoções. Mas preferiu acreditar mais uma vez na sua intuição: ainda tem muita coisa por vir e ele não perde por esperar.
O céu lhe dizia através de dias chuvosos que coisas excelentes se aproximam, e que ele nada deve fazer. Ele deve apenas ser ele mesmo. Agir como ele mesmo agiria. Para que algumas pessoas insistem em ser o que não são só para parecerem melhores? Ele era louco, sensato, falava coisas erradas justamente quando não podia mas era feliz assim. Ele nunca deixaria de ser quem era só porque certas pessoas o reprimiriam. Ele gostava de ser ele mesmo e sabia que existiam pessoas que sentiam orgulho por ele ser assim.
Com isso ele sorriu. E gargalhou logo depois. Conseguiu soltar baixinho um "que se danem". Foi procurar na internet a letra da música do tempo que ele gostaria de viver de novo. Acompanhou a tradução e achou que estava tendo um dèjá vu:
"Não se importe com o que os outros dizem, apenas siga seu próprio caminho.
Não desista e use a chance para retornar à inocência.
Esse não é o começo do fim. Esse é o retorno a você mesmo."

20 setembro 2008

(Sim,) Chove.

E o tempo lhe pregou outro susto.
Não era de se esperar, uma quarta-feira qualquer. Ele teria que passar o resto da tarde na faculdade, esperando uma amiga para ir embora juntos. Ficaria duas horas ali, sem nada pra fazer.
Sentou em um dos bancos e esperou. O tempo do relógio não passava. O tempo do clima mudava aos poucos. E ele nem percebia. Pegou um texto para ler. Sabia que não o leria de verdade, mas o simples fato de bancar o ridículo sentado sozinho e sem fazer nada de frente para uma parede lhe incomodava profundamente. Deitou. Cochilou por um momento.
Acordou com um cheiro familiar. De chuva. Mas não chovia.
(O céu borrou a cor)
(Hoje é terça-feira)
Aquela cor cinza matava sua saudade.
Escurecia. Mas não eram nem seis da tarde. Ela finalmente saiu. Eles iriam embora.
Deram alguns passos em direção ao ponto de ônibus quando trovejou.
Choveu.
E ele se lembrou de ter escrito dias atrás: "porque sabia profundamente que os próximos dias lhe reservariam uma surpresa. Uma boa surpresa.
A surpresa não seria a chuva. Mas seria como ela."
Surpresa? Sim.
Na verdade, transição. Estava sentindo o início de mudanças drásticas. Pelo menos estava encorajado a tentar mudar certos hábitos, certas atitudes, deixadas tão de lado.
Sentiu saudade. Sentiu solidão. Sentiu a chuva.
É quando começa a chover que a gente percebe o tempo passando.
E é sempre nessas horas que ele grita para si mesmo:
"Quero mudar. Mas não quero deixar o resto para trás."

04 setembro 2008

Quando se entra no jogo.

Ele havia pregado uma peça em si mesmo. Não percebera que a madrugada o acalmava mais que a chuva.
E madrugada tinha todas as noites, ele podia muito bem escolher uma assim que se sentisse triste. Com a chuva não era bem assim.
Quando no dia seguinte, de madrugada, caminhou pelas ruas da capital, sentiu uma paz de espírito muito maior do que a trazida por qualquer chuva. Exceto as tempestades. Ele não gostava delas. Trauma de infância: um vendaval havia destruído o telhado de sua casa.
E ele que achou que se esquecer das visitas dos parentes chatos já era o bastante quando a vida lhe deu mais...
Seguiu durante toda a semana se perguntando qual a surpresa que ela estaria lhe aguardando. Sabia que essa surpresa viria, mas não poderia em hipótese alguma prever quando ela chegaria.
Melhor assim.
Ele gostava disso, a vida lhe tentando, oferecendo algo bom, mas sem previsão de entrega.
E assim continuava. Um dia após o outro, sem querer pular, sem o desejo de fazer o tempo correr, passar mais rápido.
Não sabia ao certo, só sabia que lhe agradava mais essa de viver calmamente o momento do agora. Ele podia sentir tudo com mais clareza e tranquilidade. Nada estava tirando sua alegria. Seu sorriso agora estava mais eterno do que nunca. Seus Déja Vus, mais duradouros. Ele confiava no sentimento que seguia um Déja Vu.
Se atrevia a tentar fazer coisas impensáveis a um ano atrás. Se sentia preparado para qualquer desafio. Se sentia encorajado.
E quanto mais ele se sentia assim, vivo, mais a expectativa aumentava.
Ele não estava afim de fazer. Estava afim de ver tudo sendo feito.
Se sentou em uma cadeira de balanço na madrugada esperando a surpresa chegar.

30 agosto 2008

(Não) Chove.

Estava esperando ancioso a chegada da chuva. Ventava. Ele dormiu.
Ao acordar no outro dia se sentiu cansado. Estranho isso. Da noite passada só se lembrava da chegada da caravana de parentes. Uma pessoa a mais na contagem deixava a casa ainda mais "apertadinha", como uma das visitas disse, querendo se passar por simpática. E se lembrava também de ver pela porta entreaberta do quarto pela manhã alguém o observando dormir. Se segurou para não arremessar o travesseiro na porta.
E o tempo variava. Às vezes fazia sol, às vezes nublava. O vento continuava. Pensava na indecisão do tempo, de não saber a que viera, o que lhe traria. Olhou para fora de casa. O sol sumiu e enfim parecia que a chuva viria.
Não veio.
Os parentes retornaram. Que lindo... Foi irônico.
Ele continuava indiferente, sem um pingo de saco para pagar de bom moço e ficar com sorrisos fim de tarde afora. Pegou logo alguns textos da faculdade e passou a resumi-los. Tarefa adiada de terça-feira para hoje. Queria passar uma imagem de pelo menos estudioso, já que sem os textos se tornaria uma estátua.
A bagunça que a turma fez em sua casa não foi nada quando descobriu que seus familiares haviam comprado macarrão, pão, biscoitos e refrigerantes. Ele não levantaria no domingo para fazer "almoço comunidade" nem rezando.
A raiva voltara.
Naquele momento apenas a chuva o acalmaria.
Ele não se acalmou.
Dormiu quando os parentes foram felizes a um casamento.
Acordou e se pôs à frente do computador para escrever.
Digitava seus pensamentos e pensava que amanhã enfim seria o último dia de casa lotada. Teria sua individualidade de volta.
Se acalmou porque sabia profundamente que os próximos dias lhe reservariam uma surpresa. Uma boa surpresa.
A surpresa não seria a chuva. Mas seria como ela.